Empreendedorismo

O Empreendedorismo Hoteleiro no Desenvolvimento do Turismo

Não existem dúvidas sobre a importância do alojamento na organização de produtos turísticos e sobretudo na capacidade de retenção de turistas numa determinada região. Muitos empresários da hotelaria estão a promover a modernização das suas unidades hoteleiras por força da dinâmica que o turismo representa na vida económica portuguesa actual e futura.

“De acordo com dados divulgados do Eurostat, cerca de 73,3 milhões de pessoas passaram a noite em alojamentos turísticos em Portugal no ano passado. Mais de metade (67%) foram não residentes no país.”(O Observador, fev 2019)

Os dados conhecidos sobre a evolução do setor do turismo em Portugal são extremamente estimulantes e perspectivam dias melhores. A seguir o caminho da qualificação de recursos humanos e a melhorar a todos os níveis a consciência sobre o trabalho a fazer para que os agentes do turismo estejam mais articulados na conquista de turistas estrangeiros, tudo indica que em 2030 Portugal receberá mais de 20 milhões de turistas.

Estes indicadores só poderão ser atingidos por força de uma maior organização dos agentes económicos do setor, nos quais o setor hoteleiro é determinante.

A capacidade de alojamento de um território é determinante na capacidade de atração de turistas para além dos ativos turísticos disponíveis, quer sejam tangíveis ou intangíveis.

Portugal é extremamente rico do ponto de vista dos recursos turísticos. Natureza, património histórico, património religioso, eventos singulares e muito importantes na construção de produto turístico. Uma hospitalidade notável a par de uma gastronomia e uma enologia ímpares que favorecem o desenvolvimento do turismo em qualquer região.

Neste âmbito e verificando-se na última década um reforço da oferta hoteleira em Portugal é útil compreender os mecanismos de gestão que devem ser desenvolvidos para aumentar o seu potencial de negócio.

O potencial de desenvolvimento de uma unidade hoteleira depende essencialmente da sua organização e funcionamento e da forma como a sua gestão está orientada. É por isso importante estar implementado um plano de desenvolvimento estratégico que plasme uma leitura da evolução tendencial da economia, do mercado e da concorrência. Sem um plano estratégico coerente as unidades hoteleiras tendem a andar à deriva em função de oportunidades pontuais que não produzem resultados consistentes.

A construção do plano estratégico de um hotel, é uma tarefa de especialistas e desenvolve-se a partir de sessões de trabalho exigentes onde se passam em revista todos os atributos e características fundamentais da unidade hoteleira. Tem de se atender à Visão do hotel como empresa, na qual se descrevem as suas aspirações e objectivos, onde quer chegar e o que quer ser.

A Visão é importante já que guia e lidera os recursos humanos da empresa para um mesmo caminho e propósito. A Visão deverá proporcionar um ideal emocional forte que incite os recursos humanos a empenhar todas as energias para alcançar o objectivo comum. A Visão da empresa deve servir de inspiração para todos os seus membros. É a partir dessa Visão e do seu intento estratégico futuro que são definidas a missão, os objectivos e a estratégia da empresa.

A Visão de um hotel, poderá, por exemplo, apresentar-se da seguinte forma – “Proporcionamos aos nossos clientes bem-estar, conforto e descanso em alojamento de qualidade, num ambiente tranquilo, confortável, com acolhimento e serviço profissional”

Esta visão transmite desde logo aos clientes um compromisso do hotel de que tudo está organizado para que o seu funcionamento garanta o bem-estar, o conforto, o ambiente tranquilo, e o serviço profissional. É desde logo a ideia matriz que mobilizará todos os seus recursos para a prestação de um nível de serviço de qualidade.

Resulta assim que o hotel enquanto empresa terá uma missão determinada a partir da qual se estabelecerão os objectivos e valores a promover. Uma missão possível poderá ser a de “disponibilizar alojamento de qualidade, aos clientes e turistas em condições de conforto e bem-estar excecionais”. Esta missão resultará afinal de uma articulação de um conjunto de resposta a questões como: – qual é a razão de ser do hotel? – qual é o negócio do hotel? – quais são as futuras competências requeridas pelo hotel? – quem são os principais clientes ou segmento de mercado do hotel? – quais são os principais produtos ou serviços do hotel? – quais são os princípios básicos e os valores do hotel?

Esta interpretação é fundamental para despertar a definição de objectivos e valores que queremos materializar através do modo de funcionamento e da forma de estar do hotel no mercado. Os hotéis dependem por isso da dinâmica do setor turístico nacional e das decisões políticas empresariais sobre o seu desenvolvimento.

É também estratégico que exista ao nível da orientação política de um município uma visão sobre o desenvolvimento do turismo na região que não se limite aos esforços da orientação estratégica nacional. Aquela, procura afirmar uma selecção de produtos que considera estratégicos naquele momento e por um período determinado, mas está longe de incluir todas as dimensões que o turismo potencia.

Cada município, tem potencialidades que não podem ficar reféns da, condicionada e limitada, proposta nacional. Na medida em que seja possível conjugar esses interesses, nacionais e locais, resultará uma força de aceleração de desenvolvimento, mas se tal não for possível, devem manter-se linhas de orientação política local de desenvolvimento de outras opções não consideradas no cardápio nacional.

A hotelaria de cada região tem um importante papel na retenção de turistas, aumentando assim o gasto médio diário na região. A hotelaria de cada região não se destina aos residentes desse território, ela vive sobretudo com turistas internos ou externos. Nesta perspectiva tem de assumir-se que os empresários da hotelaria devem estar no centro das decisões políticas que sobre o turismo venham a ser tomadas.

 

Abílio da Cunha Vilaça | Professor Especialista no IPCA